Nesta edição, a Pasta Online não trará a seção 20 Perguntas para abrir espaço para 20 homenagens. Homenagens a um diretor de arte e de criação que dispensa apresentação e que de forma abrupta e sem prévio aviso nos deixou, enchendo de vazio o dia-a-dia de todos nós que tanto o admirávamos.
Conheci o Tomás ainda na adolescência e depois fiquei anos sem encontrá-lo. Quando comecei a trabalhar com publicidade, no começo dos anos noventa, descobri que meu amigo já era um profissional reconhecido e muito respeitado. Fiquei orgulhoso. Tivemos, a partir dai, alguns encontros casuais e sempre divertidos. E, a partir de um desses encontros, quatro anos atrás, começamos a fortalecer essa amizade. Daquele colega de adolescência a um grande irmão. Nesses últimos anos, não me lembro de ter ficado mais de três ou quatro dias sem falar com ele, mesmo quando não tínhamos nada importante a falar, mas só para saber se estava tudo bem. Lembro da sua alegria e emoção ao me ver no palco, lembro de sua generosidade, do seu talento e da sua inteligência, que ainda me iluminam. Confesso que tem sido difícil, mas sei que ele ficaria muito bravo se eu me deixasse abater pela tristeza. Então, vou seguir em frente com seu sorriso estampado na minha lembrança e com a certeza de que valeu cada segundo ao seu lado. Ao meu irmão, paz. E a nós, a honra de ter tido seu convívio e brilho. Wilson Simoninha
Quando saí da Lowe, encontrei com o Tomás, sempre um experiente ombro amigo, e falávamos de futuro. Comentei com ele a minha vontade de fazer o caminho de Santiago. "São mais ou menos 30 dias de caminhada, bem puxado, tem que ter um bom preparo físico". Ele respondeu, para o meu espanto, que já tinha feito este caminho. "Mesmo?". "Mesmo. Aluguei uma BMW 840, ar condicionado ligado e ainda fui fumando, levei só 8 horas". Pois é, e a noite terminou em gargalhadas, pra variar. Julio Andery
O Tomás era uma pessoa intensa. Trabalhar com ele sempre foi um desafio gostoso. No tempo da Almap, ele me chamou para fazer um tablóide para o lançamento do Gol (não me lembro ao certo), da Volkswagen. Ele queria fazer algo diferente, que chamasse a atenção. Eu sugeri fazermos numa rotativa de cinco cores, a primeira existente no Brasil. O resultado teria uma quinta cor, que daria um destaque bom. O carro era vermelho. Com isso conseguimos colocar um vermelho a mais no carro, que quase saltava do papel. Ficou ótimo. Na hora da impressão, que começou por volta das 20h, na Móoca, o Tomás já estava lá. Papo vai, papo vem, ao final da madrugada, por volta das 5h da manhã, o trabalho estava pronto. Resultado: algo inédito no Brasil. O carro explodia. Tomás virou e disse: "Burti, será que não dá para melhorar?". Eu virei e disse: "Vai embora daqui rapaz. Tá ótimo". O trabalho chegou até a ganhar prêmio. A mesma situação se repetia sempre, inclusive quando ele foi diretor de arte da Revista do Vaticano, ou seja, ele sempre em busca do melhor. Esse era o Tomás, uma pessoa ansiosa, que nunca estava convencido de que o trabalho estava 100%, sempre procurava o melhor. Tínhamos uma relação de pai e filho. Ele sempre me falava sobre seus trabalhos e trocávamos opiniões. Vai ficar um buraco aberto, para sempres". Luiz Carlos Burti
Tomás estava naquela noite concorrendo ao prêmio Caboré e, como todos sabem, não é fácil aquele momento que antecede o anúncio do ganhador, mesmo porque a gente fica ansioso desde a hora que chega no recinto da cerimônia, e começa a tomar todas pra fingir que está tranquilo e que qualquer resultado está valendo. Então chega aquela hora em que vão os concorrentes para o palco e você já se sente um perdedor nato, mas ainda não termina. Eles te recolhem para os bastidores e os concorrentes se confraternizam e lá vai mais umas pra acalmar. E assim foi indo a nossa noite, ele lá enchendo o ego de champanhe e eu e Silvia, minha mulher, na fila do gargarejo, também enchendo a taça e torcendo pelo querido irmão de coração Tomás Lorente. Naquela noite, Tomás não ganhou o Caboré, e ele se fez de durão, como as vezes era mestre, e então dicidimos ir jantar. Minha sugestão foi, já no adiantado da madrugada, comermos no Cafe Photo, que seguia a tradição paulistana de servir um maravilhoso picadinho. E lá fomos Silvia, Tomás e eu, e minha intenção era, além de comer o maravilhoso picadinho, distraí-lo. Fiz questão de levá-lo até a cozinha para que ele visse que a carne era toda picada na ponta da faca e, assim, distraimos o querido amigo, porque não é fácil a noite dos perdedores. E, além do show de dança do ventre e das meninas que viam aquela mesa com dois homens e uma mulher desconhecida e não sabiam como abordar, já que estávamos tão entretidos no assunto do momento, que era quem merecia e quem não merecia ter ganho o prêmio e toda a história da propaganda brasileira, do aprendizado na DPZ, coisa que tivemos em épocas diferentes, e da qual ambos só tínhamos grandes lembranças, e a noite foi nos acalmando. A Silvia, que já conhecia essas histórias, pacientemente nos intimou e tirou os dois do recinto, porque nós não fomos ali para outra coisa a não ser comer o famoso picadinho. Assim terminou a tensa noitada e cada um foi para sua casa. Eu sabia que o Tomás, "cu de ferro" do jeito que era, que nunca parava de trabalhar, iria só passar em casa e trocar de roupa, tomar um café e voltar pra DM9. Eu, que escolhi uma pofissão mais noturna, estava no décimo sono quando ele me liga dizendo que a capa do Jornal da Tarde estava assim: Polícia invade o Cafe Photo e leva todo mundo em cana! Graças a minha santa esposa, que nos convenceu a picar a mula, nada de mal aconteceu. Caso contrário, naquela hora ainda estaríamos explicando pro seu delegado toda esta história de Caboré. Com o Tomás vivi estes anos todos. Acho que falávamos todos os dias, isso quando não sentávamos para discutir todos os assuntos, que nunca foram poucos e sempre maravilhosamante intensos. Aprendi a respeitá-lo e admirar sua arte. Tenho bons amigos na profissão, mas nem todos tão apaixonados por ela como era o talentoso mestre Tomás Lorente. Obs: os redatores que me perdoem o texto, mas o que escrevo é para um dos maiores diretores de arte que conheci, coisa que todos sabem, e que não ligava muito pra isso. Um monte de carinho pra você, Tomas, esteja onde estiver meu amigão. Do irmão de coração Sergio Campanelli.
De todos os talentos que o Tomás tinha, um era inigualável: o de reunir pessoas diferentes em total harmonia. Ele ia escolhendo um a um, formando um grupo de amigos próximos que se encontravam invariavelmente numa mesa de bar. Aos poucos, fomos nos encontrando ao redor do Tomás e nos conhecendo mais, falando da vida, do mercado publicitário, contando casos. E quando nos despedíamos, no final da noite, depois de muitas “saideiras”, prometíamos nos encontrar na próxima semana. Foi assim que passamos vários anos juntos, nos reencontrando, ficando cada vez mais íntimos e sempre da mesma forma: Tomás nos recebendo e nos aproximando, como uma grande família que se encontra nas datas festivas. E desta forma fui me aproximando do Tomás, ficamos muito amigos e, enfim, irmãos. No final, falávamos sempre por telefone e nos encontrávamos quase que semanalmente para nos reunir com os amigos e compartilhar os problemas, os planos e as alegrias. Mas quando acontecem essas perdas repentinas dá uma sensação ruim de coisa inacabada, de ruptura, de muita coisa que deixamos de fazer e de viver. Na última sexta-feira, o meu telefone não tocou com a promessa de um chopinho rápido. Senti um vazio imenso e uma tristeza profunda. Nesta mesma noite, ao lado de uma grande amiga, chorei a minha perda. Perguntei a ela como uma criança pergunta a sua mãe quando se machuca: “Vai parar de doer, não vai?”. Bia Alves
Ao longo de nossa convivência, o Tomás foi para mim ídolo, professor, conselheiro, amigo e irmão. Perder um cara assim te deixa órfão em muitos sentidos. E o Tomás, tenho certeza, deixa muitos órfãos. No seu velório, mesmo alguém mais desinformado teria uma pequena dimensão do homem que ele foi. Lá choravam juntos donos de agências e assistentes de estúdio, e parte disso se explica pela sua própria trajetória. Do começo difícil a um dos mais premiados da propaganda, ele trilhou um longo caminho sem nunca esquecer dos passos dados, das razões pela qual amava a profissão e dos muitos amigos e colegas que fez. Tomás tinha o dom de fazer o belo nas mais diversas formas, fosse um anúncio ou um restaurante. A esse dom ele sempre foi fiel, ainda que tal fidelidade exigisse seu preço. Quantas vezes o vi começar um trabalho tarde da noite, hora em que seu ramal parava de tocar e a longa fila na porta da sua sala finalmente sumia. Quando poucos ainda restavam na agência ele muitas vezes ia para o estúdio, onde com estilete e cigarro na mão, celular equilibrado no ombro, refilava um anúncio ou o boneco de um de seus famosos livros, verdadeiras obras de arte disputadas depois de cada apresentação. Nesses momentos, toda oferta de ajuda era negada, fazendo questão ele mesmo de executar tarefas que sua posição já há muito deixara para trás, mas claramente demonstrando um prazer nunca esquecido. Muitos de nós simplesmente esperávamos - diretores de arte, assistentes, montadores, produção gráfica -, todos desejando ser de algum modo útil, se recusando a abandonar o chefe. Mas, naquele momento, ele voltava a ser como qualquer um de nós, e me arrisco a dizer que isso era tudo o que ele precisava.Tomás tinha no jeito de ser, trabalhar e viver uma mistura de elegância e simplicidade. Ele nos tocava de modo quase desinteressado, alheio ao próprio poder. Talvez isso explique porque tantos se encantaram com sua pessoa e seu trabalho. Talvez explique o porque de tantos lhe serem fiéis, seguindo-o incondicionalmente, mesmo que tal fidelidade nunca fosse cobrada. A nós, que de algum modo nos sentimos um pouco seus filhos, nos resta continuar aprendendo com ele. E não esquecer sua principal lição: viver a vida com paixão no coração e simplicidade na alma. Jorge Iervolino
No dia 17 de junho de 2009, recebi um telefonema do Tomás Lorente. Tomás, depois que saiu da W/ — onde foi, durante alguns anos, junto com o Jarbas Agnelli, um dos nossos meninos-prodígios da direção de arte —, sempre me usou como uma espécie de conselheiro. Me ligava para perguntar se aceitava essa ou aquela proposta, se mudava ou não de agência, se topava ou não topava ser sócio de beltrano ou de sicrano, se montava um restaurante madrilenho tradicional ou um catalão de vanguarda, se optava por um arquiteto consagrado ou por um jovem promissor para reformar sua casa, se casava ou se descasava, se ficava no Brasil ou se ia morar fora. Surpreendentemente, naquele 17 de junho, Tomás, em vez de me fazer uma pergunta, me fez um convite. Ele estava preparando um livro sobre os jogadores da seleção brasileira de 1970, com fotos deles nos dias de hoje feitas por grandes fotógrafos amigos seus, e gostaria que eu escrevesse o texto. Respondi ao Tomás que me sentia honrado, achava a ideia ótima, mas não tinha tempo: “Estou com trabalho demais na W/ e o pouco tempo que me sobra dedico às crianças e ao livro ‘Corinthians X Outros’, que prometi entregar até o final de outubro”. Tomás, cordial como sempre, compreendeu e, sincero (também como sempre), me perguntou se, então, eu não poderia apresentá-lo ao Rui Castro, nome que, na verdade, tinha aparecido na sua cabeça antes do meu para escrever o texto do tal livro — e que ele só não havia tentado contatar por não conhecer o Rui pessoalmente. Providenciei a aproximação já no dia 18, e o Rui, que não conhecia o Tomás, mas conhecia o seu trabalho, se entusiasmou com a ideia. Sugiro agora ao Rui Castro e aos brilhantes fotógrafos amigos do Tomás envolvidos no projeto que toquem essa bola para a frente. Façam o livro e publiquem em homenagem ao Tomás, um cara que nunca foi de deixar inacabada uma ideia brilhante. Washington Olivetto
Há alguns dias tenho flertado com esta página, sem coragem de escrever algo que esteja a altura do Tomás (meu negócio nunca foi escrever) ou de ser egoísta o bastante para guardar a memória dele só pra mim. Pois bem, vamos lá. O que precisa ser feito, tem que ser feito. Mas, afinal, quem era o Tomás, este cara que nos faz tanta falta, que me faz sentir um pouco órfão? Profissionalmente não preciso nem falar, todos sabemos. O Tomás era o que podemos chamar de craque. Um “Ronaldão” da direção de arte. Era lançar na área que ele fazia o gol. O resultado do trabalho era sempre surpreendente, preciso. Bastava realizar a imagem do jeito que ele havia pensado e do resto ele cuidava pessoalmente. Sempre pessoalmente. Ele realmente amava o que fazia e aí estava o diferencial do seu trabalho. Mais do que isso, ele era grato pela profissão que havia lhe dado oportunidade. Ele sempre dizia com um ar professoral: “A gente nunca abandona a canoa que nos trouxe”. Fosse ele uma fonte, acho que seria uma Century Gothic, simples, elegante, rigorosa, perfeita, ereta. Aliás, a Nina (do Laika Estúdio) sempre me dizia que o que chamava a atenção no Tomás era a sua postura ereta: ela dizia que ele parecia um toureiro. Peito aberto, espinha esticada e cabeça erguida. Mas o Tomás tinha na sua postura algo mais, algo difícil de se explicar. Era como cantava o Itamar Assunção: “Um homem com uma dor é muito mais elegante”. O Tomás queria ser o pai de todo mundo. Queria mesmo era cuidar de todos. Ele realmente se importava. Mas para alguns poucos, que tiveram o privilégio de conhecê-lo um pouco mais profundamente, estava claro que era apenas um menino. O Tomás era só um menino que ficava feliz em fazer amigos, em passar horas falando da vida, dando às coisas pequenas outro sentido, ele era realmente POP, mas o era da maneira mais sofisticada possível, sempre. Ele queria era que o luxo fosse para todos. Além de todas estas coisas sobre o meu amigo Tomás, tem algo que me vem a cabeça e que faz dele além de um grande profissional e amigo, um grande ser humano: o meu amigo Tomás era verdadeiramente generoso. Generoso, na maneira mais essencial que esta palavra pode significar e isso é impossível de se negar. Pessoalmente, acho que depois de quase quinze anos recebendo as chamadas dele quase todos os dias, o meu telefone também vai ficar um pouco na saudade. O Tomás foi um grande privilégio. Faltou apenas um abraço! Depois de ler isso tudo, ele num tom professoral, cabeça ligeiramente erguida, esfregaria uma mão na outra, pediria mais uma cerveja para o garçom e dispararia: “Hermanito, a roda da vida gira pra frente, não é não?”. Willy Biondani
O Tomás era um idealista. Por trás de tudo o que fazia existia uma motivação maior, altiva, nobre. Nem tudo o que sonhou teve tempo de pôr em prática, mas suas realizações já preencheriam duas ou três vidas normais como as nossas. Preocupava-se com a estética, mas nunca descuidou da ética. Apesar do enorme talento, jamais teve ambições desmedidas com poder e dinheiro. Nos mais de 10 anos em que trabalhei ao seu lado (primeiro na sua equipe e, depois, como seu dupla), vi inúmeras vezes o Tomás evitar o brilho dos holofotes. Por timidez e também por convicção. Nunca quis títulos ou exigiu reconhecimento (e talvez, justamente por isso, obteve e recebeu todos). Liderava através do respeito, e não do medo. Elegante até para cobrar, nunca elevava o tom de voz, nunca destratava ninguém. Generoso como poucos nesta profissão, nunca deixou de dar o crédito a quem merecia. Pelo contrário, adorava descobrir e impulsionar um novo talento. Sua ambição maior não era ser, e sim fazer.E quando se propunha a fazer algo, entregava-se totalmente com paixão e compromisso. Gostava tanto do que fazia que recortava e tratava as próprias imagens. E quando todos iam pra casa dormir um pouco antes da apresentação, ele refilava e montava pessoalmente os layouts. Tinha um amor incondicional ao Zaragoza. Adorava contar histórias sobre seu bom gosto, generosidade, alegria de viver, talento e humildade. Lembro das muitas vezes em que eu cheguei na agência e ele já estava lá com uma cara feliz (ele sempre chegou muito cedo, além de detestar atrasos). Depois de alguns minutos, comentava sorrindo, sem tirar os olhos da tela do computador: “Ontem eu meti o pé na jaca no estúdio do Zara”. E eu sabia que aquele sorriso era o mais puro orgulho,quase adolescente,de fazer parte do círculo íntimo do seu mestre. Lembro de ter ido com ele ao lançamento do livro Layoutman. Abraçaram-se carinhosamente, o Zaragoza escreveu um dedicatória linda e o Tomás, não querendo atrapalhar a enorme fila de cumprimentos, chegou para o lado. Então, abriu o livro e, lá dentro,reencontrou uma parte fundamental da sua própria vida. Mostrou-me anúncios que ele tinha sido o assistente de arte, explicando-me em detalhes as orientações que o Zaragoza havia dado para a execução do layout. Admirado de ver tantos layouts com 40 anos de idade, repetiu uma frase do Zaragoza que ele próprio não se cansava de dizer: “Quem guarda, tem”. Ao abrir sua primeira agência, o nome tinha três letras (que não eram as iniciais dos sócios porque o Tomás não quis). O layout era branco e elegante, idêntico ao da DPZ. Até os móveis eram iguais, as mesmas cadeiras, as mesmas mesas. Olhando de fora, percebia-se que eles tinham uma relação de pai e filho da vida, desses que surgem sem a gente pedir. E sua maneira de celebrá-lo era sendo um pouco Zaragoza em tudo o que fazia. Outra característica sensacional no Tomás era sua habilidade para fazer amigos. Dono de um magnetismo pessoal e um charme irresistível, ele cativava a todos. Do presidente da empresa ao assistente de arte, centenas de pessoas faziam parte da sua famosa legião de seguidores. Gente que fazia de tudo por ele. De graça, caso fosse preciso. E até pagando se necessário. Conquistava muitos amigos novos o tempo todo e cultivava seus velhos amigos como poucos. Vivia ao celular, porque fazia questão de falar com eles diariamente. Inclusive, acho que esse foi o motivo dele desistir de andar de carro e passar a andar de táxi (podia ter motorista, mas seu jeito de ser não permitiria): assim tinha mais tempo para ligar para os amigos. Fazia com que seus amigos virassem amigos entre si. Era um oceano para onde corriam todos os rios. Foi meu pai, irmão, maior incentivador, parceiro de grandes conquistas e de momentos difíceis. Foi o meu timoneiro e também o meu farol. Seu pedido era uma ordem cumprida. Mesmo que eu não entendesse o porquê, eu sabia que certamente valeria a pena. E como valeu. Saudade é uma palavra que só existe na língua portuguesa. Talvez eu me dedique a criar outra palavra tão única como esta, porque saudade não vai ser suficiente para descrever o que eu sinto agora. Ele me ligou poucas horas antes de ter o enfarto. Combinamos de almoçar no dia seguinte. E no dia seguinte eu lembrei da frase “Quem guarda, tem”. Tudo o que ele me ensinou está aqui, guardado. Para sempre. Alexandre Lucas
O Tomás começou a trabalhar na DPZ como aprendiz. Eu lhe ensinei os primeiros passos para virar mais tarde diretor de arte. Ele rapidamente cresceu, num tempo realmente muito curto, e virou um dos diretores mais competentes que eu conheci. Sempre juntos, trabalhamos verdadeiramente como amigos. Ele sempre me considerou como um pai e eu o tinha como um filhote, uma cria minha. Há pouco tempo falamos de sua volta à DPZ, mas acabou não dando certo. Queria muito ter trazido o Tomás de volta para a DPZ. Tínhamos uma relação de pai para filho. Ele foi realmente muito mais que um colaborador, um funcionário. Foi um amigo. Por isso, falar sobre a perda de um amigo querido é algo muito difícil. Nos encontrávamos quando dava tempo, mas era sempre de um jeito como se nunca tivéssemos nos apartado. Ele fez coisas que marcaram, coisas memoráveis, como a marca para a ONG SOS Mata Atlântica e o selo dos 80 anos da imigração japonesa no Brasil. O Tomás sempre será lembrado, sempre fará muita falta. José Zaragoza
Acho que de todas as experiências vividas com Tomás, sem dúvida o que sempre me marcou, e nos aproximou,
foi sua enorme preocupação em buscar a forma mais ética e humana de lidar com as coisas, principalmente com as pessoas. Falível como qualquer ser humano, cada vez que isso não acontecia, e ele se sentia desreispeitando a sua enorme lealdade com os amigos, Tomás sofria. Presenciei isso muitas vezes, ao que alguns comentavam: “Pô, o Tomás parece que nunca tá satisfeito”. E não estava mesmo. Pelo menos não com isso. As leis do mercado, a vaidade, as angústias desse universo, tantas vezes movido pelo descaso ao ser humano, sempre o incomodaram. Um legítimo espanhol, que não se rendeu facilmente à fama e ao sucesso, mesmo tendo tudo para isso. Certamente, Tomás não foi um santo, mas sem dúvida um grande homem, maior do que se vê numa primeira olhada, um grande artista e profissional. E agora que virou “lenda”, pode ser também um grande exemplo pra todos nós. PC Bernardes
"E aí, méo?”. Há exatos vinte dias não ouço esta típica e carinhosa pergunta no meu celular. Desde 1999, falava com o Tomás diariamente. Ele mantinha o hábito adolescente/colegial de ligar todos os dias para bater papo sem nenhum assunto específico, por nada em troca, só para ouvir a voz dos amigos. Era assim comigo, com o Willy, Alê Lucas, Simoninha, Andreas, Nassar, Jader, com a Bia Alves e com uma legião de amigos. Pode parecer que ele tinha tempo. Não, ele não tinha. Trabalhava demais. Na fase da Y&R, o Tomás trabalhou quase 100% dos finais de semana. E olha que não foi pouco tempo, foram três anos. Os trajetos de táxi e os "cigarrinhos" eram seus aliados para esses momentos de puro carinho explícito. O resto do tempo era de um foco e disciplina impressionantes, germânicos. Recortando imagens, pegando referências, produzindo layouts assustadoramente lindos. Várias vezes, na DM9 e na Young, tomava sustos com o talento do Tomás ao passar distraidamente por trás da tela do computador dele. Falava, então, que seria desnecessária a minha presença na reunião com o cliente diante da qualidade daquela verdadeira obra prima e ele dizia, com uma modéstia acima de qualquer suspeita: "Que isso, méo". Com esse “méo”, com ‘o’ e não com ‘u’, tão característico e tão bem imitado pela nossa amigona Mariana Sá. Pois é, nesses vinte dias sem o Tomás, o celular perdeu muito do seu uso. Toca muito menos. Cumpre só sua função de marcar compromissos de trabalho, com os amigos e queridos familiares. Só conversas objetivas. Falta o Tomás, falta muito. Tudo ficou bastante sem graça: a cerveja, o vinho, a gastronomia, São Paulo. A cidade que, no meu primeiro HH de 1999, recém-chegado do Rio e já residente, me deu como anfitrião na mesa do boteco em frente à DM9: o Tomás. O Tomás com quem passei o último domingo inteiro de sua vida, no seu apartamento, batendo papo furado e vendo o Brasil ganhar a Copa das Confederações. O Tomás que me ligou duas horas e meia antes de sua morte para falar “e aí, méo?”. Eu não pude falar direito. Estava entrando na ponte aérea e marcamos um jantar para o dia seguinte. E aí o telefonema terminou com outro clássico do Tomás: "Então, méo, tu me ligas? Combinado, irmão!". Pois é, apenas algumas horas depois perdemos o craque, o “extra classe”, o amigão intenso, carinhoso, às vezes brigão, mas sempre o cara preocupado todos os dias em regar a amizade. A vida ficou vazia, os dias passam e a ausência só aumenta. Saudades imensas do Tomás. Saudades de quem faz a diferença na vida. Saudades do 9972-8705 na tela do meu celular. Que vazio que você deixou, Tomás... Um beijo, amigo. Sérgio Brandão
Um dos motivos para eu ir trabalhar na DM9 foi a oportunidade de estar ao lado do Tomás. E tive muita sorte, pois trabalhamos e compartilhamos a mesma mesa. Durante uns cinco anos, sentamos juntos para criar e atravessamos inúmeras vezes para beber no Cardozo. Foi um padrinho para mim na DM9, meu mestre na direção de arte e um amigo para o resto da vida. São tantas histórias bacanas com o Tomás, que é difícil destacar uma. Vou contar uma diferente, fora do trabalho. Quando ele resolveu abrir um restaurante, o TORO, chamou um amigo comum que tínhamos, o arquiteto Sig Bergamin, para fazer o projeto de decoração. Eles conseguiram realizar um dos projetos de restaurante mais bonitos de São Paulo. Estava tudo lindo, tudo bem até que eles chamaram um paisagista para dar um toque final. Colocar na frente do TORO uma planta robusta, bonita para, segundo eles, quebrar aquela "concretude" e aridez de São Paulo. E lá foi o Tomás escolher a dita "plantinha". Como tudo que ele sempre fez, escolheu a mais linda, o grand prix das árvores, a mais perfeita, a MAIOR. Ele não se tocou da proporção da fachada do restaurante em relação a aquela estrondosa árvore. No dia marcado, me ligou e fomos nos encontrar em um restaurante na frente do Toro para apreciar a colocação daquela dita "plantinha". Quando cheguei, fiquei impressionado com a operação de guerra, guindaste, inúmeros jardineiros, serventes, CET. A árvore que chegou era realmente linda, mas gigante, GIGANTE MESMO. Tomou toda a frente do restaurante. Mal dava pra ler a placa com o nome Toro. Olhei pro Tomás esperando alguma reação do tipo "acho que errei na proporção etc". Mas isso não seria Tomás. Ele era um cara que olhava a beleza isoladamente, sem se deixar influenciar pelo entorno. Era isso que bastava pra ele. Olhar o melhor, o mais bonito de cada coisa, de cada pessoa. Era assim com os amigos, com a equipe, com a vida. O restaurante ele vendeu mas a árvore continua nos meus pensamentos, grande estrondosa, linda. Sergio Gordilho
Um dia, me chamaram para escolher um diretor de arte para participar comigo de um projeto para o Getty Image. Eu teria que escrever um texto sobre o cara escolhido. Ele faria um layout. Eu escolhi o Tomás. Ele nunca fez o layout. Ou seja, meu texto nunca ficou bonito como poderia, como Tomás o deixaria. Mas o texto diz muito do que eu acho dele. Então, vai sem layout bonito mesmo. Vai sem Tomás.
Por que Tomás? Ora, porque Tomás. Tomás é um diretor de arte brilhante. Descobri isso no primeiro momento que entrei na DM9 e vi como todos o tratavam. Ele era, e é ainda para muita gente, uma referência de cuidado e estética na direção de arte. O mais bacana, que acabou aproximando nós dois, foi o fato dele olhar toda aquela “devoção” dos criativos de um jeito natural, sem a menor prepotência. Tomás é tranquilo. Não é fácil, pois os bons não são fáceis. Mas é tranquilo: simples, direto e honesto. Aliás, como a sua direção de arte é. Tomás não tenta ser um artista plástico frustrado vestido na pele de diretor de arte. Tomás é diretor de arte e ponto. Um cara que é capaz de ficar horas preocupado com o espaço “entre letras” e “entre linhas”. Quem ainda se preocupa com isso? Pois é, tem uns diretores de arte que sim. E, por isso, são diretores, realmente. Dirigem a arte e os artistas. Eu tenho muito orgulho de ter estado frente a frente com alguns desses. Com vários deles tive e tenho a oportunidade de criar belas campanhas, muito mais belas pelo talento deles do que pelo meu. Tomás é desses caras que fazem a diferença. Deixam tudo bonito. Mesmo porque, esse é o grande mérito do diretor de arte: deixar bonito. Porque uma ideia ruim passa se for bonita. Uma ideia genial não passa se estiver feia. Com o seu jeito meio paulista e meio espanhol, com seu sapato social de bico fino e calça jeans de boca apertada, com sua camisa de manga cumprida dobrada e por fora da calça, Tomás Lorente segue fazendo história na propaganda brasileira. E, eu posso garantir, a história que o cara escreve é linda, linda, linda. Bom, enfim, por que eu escolhi Tomás? Ora o cara é o Tomás. Meu parceiro antigo, meu dupla atual nesse trabalho, mas, acima de tudo, meu amigo na vida. Tomás, publicamente, obrigado por fazer esse trabalho comigo. Sergio Valente
Fiquei muito feliz em receber este convite para escrever sobre uma pessoa muito querida para mim e com quem convivi por um longo tempo. Falar sobre ele daria para escrever um livro, mas tenho de deixar espaço para os outros, também grandes amigos que ele tinha, que aliás são muitos. Ainda é muito difícil de acreditar que o nosso querido mestre e amigo se foi. Que saudades. Falar dele é sempre muito gratificante, pois trabalhei ao seu lado por mais de 15 anos. Ele era uma pessoa muito especial e admirada por todos que puderam conviver com ele. Uma pessoa tão generosa e querida, que jamais se deixou influenciar pelo ego da propaganda, talvez por isso colecionava tantos amigos. Um apaixonado pela propaganda e pelo design gráfico. Produzimos trabalhos incríveis e lindos, em que o seu estilo sempre foi muito marcante: ideias brilhantes, layout clean, textos blocados, imagens contrastadas, fotos lindas. Nada como amar o que faz, e isso ele sabia fazer brilhantemente. Jamais esquecerei o tempo de muito trabalho, de pouco prazo, mas que, com aquele jeito objetivo e prático, sempre conseguíamos fazer tudo da melhor forma e com o melhor resultado, pois ele sempre estava disponível a ajudar a todos e sempre dava um jeitinho para conseguirmos mais prazo no veículo (risos). Quantas emoções e negociações. Sinto um enorme vazio em lembrar que não irei mais produzir aquelas campanhas, projetos gráficos e livros maravilhosos que só ele tinha o dom de criar, dando o seu toque pessoal, de fazer as peças mais simples ficarem maravilhosas. Trabalhar com ele foi simplesmente uma grande escola para mim e para todos os que puderam estar ao seu lado no dia-a-dia. Que mestre! Talvez por amar tanto o que fazia ele jamais dizia não e sempre vivia com “milhões” de trabalhos ao mesmo tempo, seja da agência, dos amigos, de projetos pessoais, pois sempre aparecia um job extra – um livro ou uma revista – que ele adorava fazer e o fazia com o maior prazer. Sem dúvida, agora o layout da propaganda está opaco, perdeu a sua cor, o seu brilho, e as imagens não serão mais contrastadas como antes. Ficaram os amigos, os discípulos, os ensinamentos, os projetos. Mas o mestre nos deixou. Infelizmente partiu muito cedo, num momento muito feliz da sua vida. E como ele estava feliz! Talvez isso possa nos confortar, já que ele se foi feliz como sempre viveu. Tomás, tenha certeza de que você será inesquecível para aqueles que o conheceram. Você vai fazer muita falta. Que saudades. Fica com Deus! Com carinho, Elaine Carvalho
Tomás Lorente foi meu mentor, minha principal dupla, um amigo querido,exagerado e carinhoso. Como todo espanhol, era intenso: amava intensamente, odiava intensamente. Eu vivi esses dois lados. Com ele ganhei todos os prêmios da publicidade, alcancei as maiores glórias. Vivi uma relação de amor raramente vista entre homens. Fomos irmãos mesmo: criávamos juntos, almoçávamos todos os dias, bebíamos até tarde (muitas vezes, contra a minha vontade: ele não me deixava ir embora). Vivemos as maiores emoções juntos. Nossas irmãs ficaram doentes ao mesmo tempo, nossas mães foram operadas no mesmo período. Chorávamos um no ombro do outro. Viajávamos juntos (é verdade: tirávamos férias e íamos para os mesmos lugares). Convivi tanto com o Tomás (ele sentado sempre ao meu lado direito) que certa vez fui fazer um exame médico e o doutor me disse que eu tinha uma mancha de nicotina no pulmão direito, acredite se quiser! Ralhei com ele várias vezes para maneirar no cigarro (eram 3 maços por dia), menos preocupado com a saúde dele do que com a minha. Ele dizia, com grande dose de razão, que os gênios fumam. Sim, Tomás sabia que era um gênio. Quando saí da DM9, num gesto nobre - que demonstra bem seu caráter e lealdade - ele saiu comigo. Abandonou uma sociedade numa bem-sucedida agência simplesmente para me acompanhar. Em menos de 24 horas, juntamente com a Ana, decidimos abrir a age. Alguns anos depois, quando deixou a age., experimentei o outro lado. Tomás me odiou com todas as forças, se empenhou em tirar o pessoal da criação, e tirou mesmo. De todos os lados, ouvia demonstrações de sua dor, rancor e ressentimento. Foi um período muito difícil. Na inauguração de seu restaurante (que acompanhei cada detalhe, íamos lá toda tarde), mandei flores para tentar amainar as coisas. Não adiantou muito. Claro que voltamos a nos falar, mas nunca mais foi como antes. Apesar de nosso afastamento, sempre continuei ligado a ele. Eu sabia quando ele não estava bem. Nas semanas que antecederam a saída dele da Y&R, sonhei com o Tomás três vezes. Na fatídica noite de seu infarto, não preguei o olho: tive taquicardia, dores pelo corpo, algo me incomodava e me impedia de dormir. De manhã, soube o motivo: ele estava se despedindo. O mercado perde um gênio, um Midas. O mundo perde um sonhador, um homem que flertava com a excelência em tudo que fazia. E eu perco um irmão com quem, para piorar, não havia retomado a amizade por completo (ah, isso ainda vai doer muito). Para meu consolo, há uns 15 dias, minha esposa encontrou com ele num shopping. Se falaram, o Tomás viu as fotos de minha filha pela primeira vez. E a Fernanda, que sempre soube de meu sentimento por ele, verbalizou: “Tomás, o Domingos gosta muito de você. Mas gosta mesmo: sempre que fala de você, seus olhos enchem d’água”. Tomás sorriu e respondeu: “Eu também gosto muito dele. Vou ligar para ele semana que vem”. Como era de se esperar, ele não ligou. E eu também não. Por esse orgulho besta que vitimiza muitos de nós, homens. Eu sabia que Tomás era uma história mal resolvida na minha vida. Me lembro de um período em que comecei a fumar charuto. E o Tomás me advertia, com a maior cara-de-pau: “Olha lá, você vai ter câncer na boca”. Eu olhava para o cigarro em sua mão e respondia, com sarcasmo: “E você vai ter câncer no pulmão, e nós seremos a dupla mais criativa do hospital. Pois bem, Tomás, não aconteceu assim. Mas quem sabe, daqui a alguns anos, nós seremos a dupla mais criativa do céu. Um beijo carinhoso de seu eterno dupla, amigo e irmão, Carlos Domingos
Tomás Lorente construiu comigo a DM9, foi sócio da DM9. Deve ser reverenciado por todos nós como um dos grandes nomes da revolução criativa do Brasil. Nizan Guanaes
Custei para encaixar a imagem que me vendiam do Tomás Lorente – o criativo premiadíssimo, dono de, como diria San Juan de La Cruz, mano blanda y toque delicado – com a figura que eu via todas as manhãs no saguão de meu prédio em Higienópolis – guapo rapaz, com seus invariáveis jeans e camisa preta, falando ao celular, à espera do seu imponente carrão. Aconteceu assim: um dia, o Andrea Carta – outro que se foi cedo demais – me convidou a assinar uma edição especial de Vogue Homem, acho eu que era sim Vogue Homem, fazendo dupla com o Tomás. Eu conhecia a reputação do Tomás, da W/Brasil, da DM9, da age., e topei na hora. Seria uma dupla virtual, explicou o Andrea – a gente trabalharia on-line, trocando emails, textos e pdfs. Até que, de repente, alguém tinha de mandar um livro para alguém – ele para mim, creio – e a produtora de Vogue tratou de me ligar, pedindo o endereço. Ligou de volta cinco minutos depois, ansiosa. De novo, queria o endereço. Repeti. E ela: “Não pode ser, esse é o endereço do Tomás, onde tenho de buscar o livro. E o seu?”. Enfim, o Tomás era o meu vizinho do 19º. andar e, depois daquele dia, nós dois, cada um mais ligado do que o outro nesse vertiginoso processo de revolução midiática, mundo plano e cauda longa, passamos a nos comunicar por aquele inusitado meio: o elevador. Conversávamos também naquele saguão, meia dúzia de palavras, quem conheceu o Tomás sabe que ele não era de falar muito. O suficiente, porém, para eu me sentir amigo dele e apreciar nele a integridade com elegância e o talento sem exibicionismo. Aquela noite em que ele se foi uma sublime alegria – o título do Corinthians – acabou acachapada por uma tristeza doída, na súbita chegada de uma, duas ambulâncias, no inesperado frenesi dos paramédicos a atravessar correndo o saguão onde o Tomás não estaria mais na manhã seguinte, nem na outra, nunca mais. Não sei como interpretar a coisa, mas o elevador ficou parado dois ou três dias, imóvel, em silencio solidário. Nirlando Beirão
Estava chegando na DM9 pra uma missão difícil e cruel, dirigir um gato preto em um filme. Depois de um tempo na sala de reunião, entra o Tomás. Alto, todo sério, de preto, com aquelas passadas cadenciadas mas que ao começar a falar, aliás, o último a falar, me surpreendeu e assim descobri um dos caras mais doces com quem já trabalhei. Jamais esqueci este momento. Foi assim que o conheci e nos tornamos amigos. Até agora é estranho pensar que ele não está mais aqui, que vou deixar de ouvir “cacetas” e “caracas”, gírias que só ele falava, que não vamos mais no japa nosso vizinho e que, enfim, ele não está mais aqui. O Tomás, para mim, era singular. Não se comportava igual à ninguém, não fazia tipo, tinha uma originalidade no ser, fazer e estar que era única, só sua, e é isso o que mais me encantava. Não tinha panela, tinha amigos e estava sempre aberto a receber mais um ou mais vários que, a cada lugar em que trabalhava, vinham se juntar a tantos outros. Difícil deixar de trabalhar para um cara talentoso que te estimula, te ouve e tem a simplicidade de trocar e aceitar suas ideias. Era um prazer trabalhar com e para ele. Me dava toda a liberdade que eu precisava pra fazer meu trabalho. Sempre entendeu que o diretor está ali pra completar e fazer junto um melhor filme. Tinha a simplicidade de perguntar sobre o que não sabia. Seu carisma e talento eram tamanhos que a vontade de fazer seus filmes era muito grande, porque o processo era sempre prazeroso. Por uma ideia simples, fui parar na sala de Pedro Almodóvar para dirigi-lo. Nunca houve um não e sempre houve um sorriso. Mas, difícil mesmo é ficar sem o amigo. De todos esses anos de trocas, me lembro carinhosamente e especialmente do momento em que perdi meu pai. O Tomás soube, me ligou e ficamos um bom tempo falando “picas”- como ele falaria – e eu sabia que esse botar conversa fora era o jeito dele estar ali comigo. Ele é um cara muito querido pra mim, difícil usar o verbo no passado, difícil apagar o telefone dele do celular, ainda não dá. Não consegui abreviar a sua finitude. Perdemos todos. Uma pena. Sinto falta, sinto saudades. Bia Flecha
O Tomás foi o amigo de infância que eu conheci já adulto. Augusto Moya
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Grande perda para amigos, conhecidos e para o meio publicitário que hoje vive tão carente de grandes talentos como o grande Tomás...
– Roberto Iucker
A vida tem muitos "porques" e por mais criativo que sejamos, não temos uma idéia de resposta. Só nos resta guardar em nossos corações e continuar a caminhar. Que Deus console os corações dos familiares do Tomas e a nós profissionais.
– João Carlos Marchesin
Ainda sou um simples gato no meio dos felinos da publicidade. Nunca conheci o Tomás, descobri o seu talento através do livro do meu ídolo Carlos Domingos, o Criação sem Pistolão, no primeiro ano da facul, e quando conheci o seu trabalho pensei, ainda serei dupla dele e aluno do Domingos, pobre ilusão de quem começa na publicidade. Descobri o seu falecimento no CCSP e senti um aperto no peito, percebi que o mundo publicitário perdia quem realmente fazia a diferença. Agora olho pro céu e quando vejo uma nuvem desenhada sei que tem a mão do Tomás.
– Alexsander Brunello