Por: Alexandre Okada, vice-presidente de criação da McCann Erickson
Ela não foi para nenhum refrigerante, carro, cerveja ou computador. Não foi nem mesmo em publicidade. A maior concorrência da história (vamos considerar que não houve licitação para a construção da Grande Muralha da China ou dos Jardins da Babilônia) foi entre a Lockheed Martin e a Boeing, para produzir um novo avião-caça para o governo norte-americano.
Um polpudo contrato de bilhões de dólares (isso foi bem antes da crise e numa época em que não faltava dinheiro para essas coisas).
Imagine toda a euforia-nervosismo-ansiedade entre as equipes de criação. Criação? Sim, criação. Porque o problema central exigia uma solução criativa: este avião deveria obrigatoriamente ser capaz de levantar vôo na vertical, como um helicóptero. É certo que já existia um outro avião no mundo com essa capacidade: o Harrier inglês. Mas as outras características exigidas para o novo avião dificultavam muito o uso da mesma tecnologia do velho Harrier. E assim começou a maratona.
As duas empresas tomaram direções opostas. A Boeing decidiu ir no certo: iria melhorar o conhecido Harrier. Rapidamente ela montou uma grande equipe de técnicos, projetistas e cientistas para tentar aprimorar em todos os aspectos o velho avião inglês. Ele seria uma evolução em todos os sentidos. Uma versão 2.0.
Já a Lockheed fez diferente. Beeem diferente. Ela resolveu apostar em dois moleques. Dois jovens universitários. Eles tinham uma ideia. Teórica. Não tinham nem certeza se ela iria funcionar, ou não. Mas que era uma bela ideia, isso era. E a Lockheed acreditou na ideia. E investiu nos dois. Colocou toda uma estrutura física e humana a serviço dos dois. Tudo e todos trabalhando ao redor de uma ideia de dois jovens universitários (que fazendo a transposição para o nosso mundo publicitário, seriam o equivalente a estagiários).
Foi um longo período de testes e incertezas. Houve momentos em que acharam que a ideia não era viável (tem sempre um que diz: "Não dá pra produzir isso no Brasil!!! Nem diretor argentino faz isso!!!"). Mas o cara de cima aguentou firme e continuou bancando a ideia. E não é que ela funcionou? E adivinhe quem ganhou a concorrência? Sim, como nos melhores filmes americanos, a ousadia foi recompensada. A Lockheed ganhou a maior fatia do contrato (tem sempre uma politicagem nessas coisas, tipo “vamos dividir a conta pra todo mundo ficar feliz”).
O paralelo entre esta história e nosso pequeno mundo publicitário é claro. É preciso acreditar na ideia, não importando de onde ela tenha vindo. Mas não é só isso. O principal: é preciso criar as condições para que ela cresça, para que ela resista aos ataques e aos momentos de incertezas. É preciso ter os melhores técnicos a serviço da ideia, cada um em sua especialidade, trabalhando para torná-la real. Para que ela possa decolar. E voar alto.
By the way, a ideia era simples e genial. Ao invés de usar as turbinas para "empurrar" o chão na decolagem, elas eram direcionadas para as asas do avião gerando a sua própria sustentação no ar.
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