Bráulio Mantovani, paulista, 45 anos, é formado em Língua e Literatura Portuguesa, pela PUC de São Paulo. Começou a escrever roteiros profissionalmente em 1987, aos 24 anos, bastante jovem. Hoje, reconhecido e premiado, tendo um de seus roteiros indicados ao Oscar, é procurado até mesmo por diretores estrangeiros. “Os germânicos têm uma queda especial por meu trabalho, não sei por que”. Bráulio não busca coerência entre seus projetos cinematográficos: se gosta da história, abraça o filme. Quanto ao sucesso estrondoso obtido com “Cidade de Deus” (filme que o levou à mais famosa premiação do cinema mundial), enfatiza: “Provavelmente não farei outro roteiro que tenha tamanha repercussão. Seria como ganhar duas vezes na loteria. Portanto, levo a vida com muita tranqüilidade e sem autocobranças. Coloco técnica e coração em tudo o que escrevo”. Siga lendo sem piscar, até chegar ao fim
Pasta Online: O gosto pelas palavras, pelos textos, pela leitura vem desde a infância ou chegou um pouco depois? Quando você descobriu que a coisa da escrita e das histórias lhe caía bem?
Bráulio Mantovani: Eu acho que gosto de ler e escrever desde que aprendi a ler e escrever. Sempre fui muito bom aluno nos cursos de português e me deliciava nas aulas de redação. Aos 13 anos disse para os meus pais que queria ser escritor. Eles ficaram apavorados, disseram que eu iria morrer de fome e me obrigaram a fazer um curso técnico no colegial. Eu pensei em ser roteirista de cinema aos vinte e poucos anos, quando ainda cursava letras. Mas não havia mercado de trabalho para essa profissão. Até o “Cidade de Deus” dar certo, nunca imaginei que pudesse ganhar a vida escrevendo longas-metragens. Eu pagava as contas escrevendo programas educativos para a Fundação Roberto Marinho, a TV Cultura, a TV Escola e o Canal Futura.
Pasta Online: Você teve outras experiências no universo audiovisual que não apenas a de redigir textos. Já foi assistente de câmera e assistente de direção, inclusive de nomes como o polonês Zbig Rybczynski. Que tal a experiência junto às câmeras, à parafernália de equipamentos e de gente, tão distinta da experiência solitária da escrita? A assistência de direção já aconteceu em filmes cujo roteiro é seu, o que aliás deve ser um facilitador para o diretor, ou só em filmes que não têm roteiro assinado por você?
Bráulio Mantovani: Eu fiz teatro muitos anos. Na PUC, eu dirigia um pequeno grupo de performances. Gostava do trabalho e acha que não era um diretor ruim. Por isso tive, durante um certo tempo, a veleidade de ser diretor de cinema. Minha experiência no set me ensinou que o meu barato é escrever. Eu detesto set de filmagem. É pior do que ir ao dentista. Eu raramente assisto às filmagens dos roteiros que escrevo e, portanto, jamais poderia assistir os diretores. Quero dizer: nunca trabalho como assistente de direção. Roteirista não é assistente de diretor. É co-autor do filme. Os diretores me chamam para ver ensaios e acompanhar a montagem para ouvir os meus palpites. Até mesmo em meu primeiro longa (“Cidade de Deus”) fui tratado como co-autor pelo Fernando Meirelles. Mas o fato de conhecer o set, saber como funcionam as lentes de uma câmera, entender para que servem os movimentos de câmera e também ter feito teatro como ator me ajudam muito a escrever meus roteiros. Nunca uso indicações de câmera ou montagem em meu texto de roteiro, mas escrevo de maneira a sugerir enquadramentos e cortes para o diretor, sem que ele perceba que estou fazendo isso.
Pasta Online: Você já viveu fora do Brasil, se especializou na Espanha (Madri), trabalhou nos Estados Unidos (Nova York). O quanto essas experiências foram importantes e transformadoras para você? Hoje em dia, viajar, sair muito de casa, ouvir as pessoas falando, circular por todo canto, são atividades que fazem parte obrigatória do seu dia-a-dia no sentido da renovação e da inspiração criativa?
Bráulio Mantovani: Morar fora da cidade, do país onde nascemos é bom para a vida. No meu caso, foi bom também para a minha profissão na medida em que tive a oportunidade de aprender muito sobre cinema como assistente do Zbig em Nova York e pude me aprofundar no entendimento da dramaturgia de cinema no master de roteiros que fiz em Madri. Mas o mais importante, mesmo, foi ser estrangeiro. É uma experiência fundamental.
Pasta Online: Sua parceria com Fernando Meirelles teve início em “Palace II” ou vem antes disso? A experiência de ter roteirizado “Cidade de Deus” terminou sendo assustadora, pelo tamanho da repercussão (positiva) do filme? Você assina o único roteiro brasileiro indicado ao Oscar (Melhor Roteiro Adaptado). Depois disso, nada ou tudo saiu do controle? O assédio de diretores brasileiros e estrangeiros aumentou? Foi um divisor de águas em sua carreira?
Bráulio Mantovani: Na verdade a parceria com o Fernando começou no “Cidade de Deus”. O “Palace II” é um subproduto do longa. Já estávamos na quinta ou sexta versão de roteiro e o Fernando já estava preparando o elenco quando a Globo o convidou para dirigir um episódio da série “Brava Gente”. Aí ele me chamou e nós inventamos o “Palace II”. Acho que podemos dizer que ambos os filmes, longa e curta, são frutos da mesma parceria e do mesmo momento. A repercussão internacional do Cidade de Deus de fato mudou minha vida. Mesmo um pouco antes de sair a indicação ao Oscar eu já estava trabalhando apenas como roteirista de longas-metragens. O filme ”Última Parada 174”, por exemplo, começou a ser escrito antes da história do Oscar. O Bruno Barreto me convidou para escrever o filme depois de ver Cidade de Deus. Até hoje colho os louros. Não apenas diretores brasileiros querem trabalhar comigo. Alguns (poucos) diretores internacionais também já se aproximaram de mim para trabalharmos juntos, mas os projetos ainda não vingaram. Por algum motivo que não sei explicar, os germânicos parecem gostar mais de mim. Dois diretores alemães -- Oliver Hirschbiegel (“A Queda: as Últimas Horas de Hitler”) e Marco Kreuzpainter (Trade) -- e um austríaco -- Hans Weingartner (Edukators) me procuraram para trabalhar com eles.
Pasta Online: “O ano em que meus país saíram de férias” é outro filme cujo roteiro (que você assina ao lado de Cláudio Galperin e Anna Muylaert) foi muito elogiado e cujo resultado foi bater lá no Oscar, como candidato brasileiro, embora não tenha sido indicado. O que você nos conta de marcante no processo de construção dessa história?
Bráulio Mantovani: Minha colaboração nesse roteiro foi muito modesta. Considero que a autoria é do Claudinho e do Cao [Hamburger]. Eles foram excessivamente generosos ao manter meu nome nos créditos.
Pasta Online: Há pouco mais de um ano, outro roteiro que traz sua assinatura estourou: “Tropa de Elite”. Nesse trabalho, você entrou como script doctor e trabalhou em cima do texto apresentado por Rodrigo Pimentel (o policial) e José Padilha (o diretor), certo? Como se deu seu encontro com José Padilha? Imagino que inclusive seu trabalho em “Última Parada 174”, do Bruno Barreto, tenha saído desse miolo, já que antes de Bruno mexer nesta história, Padilha havia feito “Ônibus 174”.
Bráulio Mantovani: Eu conheci o Padilha quando comecei a trabalhar no “Última Parada 174”. Ele me passou todo o material de pesquisa do documentário e me contou um monte de coisas sobre a história real. Viramos amigos. E aí eu passei a ajudá-lo no roteiro do ”Tropa”. Mas logo deixei de ser script doctor e passei a reescrever o roteiro (um trabalho que se estendeu durante a montagem do filme). Padilha é, além de um grande amigo, um grande parceiro. Temos muitos outros projetos que pensamos em desenvolver juntos. Ele é uma das pessoas mais inteligentes, mais criativas e mais corajosas que conheço. Nos damos bem profissionalmente porque não temos medo de errar.
Pasta Online: Você investe numa determinada linha de cinema, vê coerência entre seus projetos cinematográficos, de certa forma ligados a diferentes pontas da violência brasileira, seja ela social, política ou econômica, ou não busca coerência alguma e apenas segue conforme batem os ventos que te inspiram?
Bráulio Mantovani: Sigo os ventos que batem e me inspiram. Se eu gosto da história, entro no projeto. Não tenho nenhuma predileção especial por temas específicos.
Pasta Online: Acumular um currículo como o seu começa a dar medo do risco ou do fracasso? As vezes você se vê seguindo determinada “forma narrativa” que tenha funcionado em um filme anterior correndo o risco de transformar esse acerto em uma “fórmula”? Manter a intuição e a inconsciência do autor vivas é missão difícil?
Bráulio Mantovani: Como disse antes, não tenho medo de errar. Eu já escrevi “Cidade de Deus”, que ser tornou uma referência mundial. A rigor, poderia me aposentar. Duvido que algum dia eu escreva um outro roteiro que tenha tamanha repercussão. Seria como ganhar duas vezes na loteria. Portanto, levo a vida com muita tranqüilidade e sem autocobranças. Coloco técnica e coração em tudo o que escrevo. Se fica bom, ótimo. Se não fica, paciência. Eu sempre tento fazer o melhor possível. Mas não estou apostando corrida comigo mesmo. Além disso, como dizia Samuel Beckett: "Falhar, falhar de novo, falhar melhor". Esse é o meu lema.
Pasta Online: “Tropa 2” vem aí? Fora esse projeto, quais outros estão te rondando? Seu foco continua centrado em longas-metragens?
Bráulio Mantovani: Eu não gosto de comentar projetos em andamento. Muitos não dão certo. Já escrevi 13 roteiros de longas e apenas cinco foram produzidos.
Pasta Online: Muita gente critica, ou criticava, o cinema brasileiro em função de uma suposta falta de talento de nossos roteiristas, ou pela falta de caras especializados em diálogos, por exemplo. O que pensa sobre isso? O quadro mudou?
Bráulio Mantovani: Está mudando. O que acontecia é que roteirista não era uma profissão de verdade. As pessoas do cinema costumam tratar o roteirista como um cara técnico, um assistente. Roteirista (salvo raras exceções) ganhava mal e não tinha visibilidade profissional. Essa situação está mudando desde o início da retomada. E a velocidade da mudança está aumentando. Mesmo antes de “Cidade de Deus”, nomes como José Roberto Torero, Fernando Bonassi, Victor Navas e Marçal Aquino passaram a dar prestígio à profissão. Cada vez mais os produtores e diretores se mostram preocupados em ter um bom roteiro. Passaram a investir no roteiro. Acho que o quadro mudou, está mudando e vai mudar mais, para melhor.
Pasta Online: Você tem tempo ou gosta de ver TV? Presta atenção em comerciais ou repara em anúncios estampados em revistas? O que pensa da publicidade?
Braulio Mantovani: Vejo pouca TV. Quando estou com meu filho de 4 anos, vejo muito Discovery Kids e Cartoon Network. Gosto muito da série House. Raramente perco um episódio. Quanto à publicidade, não sou do tipo que muda de canal quando entram anúncios, mas também não presto muita atenção. Só fico muito irritado com a publicidade dirigida às crianças. Sem querer ofender os leitores publicitários, acho criminoso fazer comerciais para crianças que ainda estão em uma fase inicial do desenvolvimento cognitivo. Elas não têm condições de diferenciar uma obra de ficção de um noticiário ou de uma peça de publicidade. O CONAR deveria estar mais atento a essa questão. Os comerciais para crianças, na minha opinião, colocam em questão a legitimidade da publicidade. Não tenho nada contra o consumo. Mas me oponho radicalmente à maneira como as crianças são estimuladas a consumir. Comerciais para crianças são mais nocivos do que comerciais de cerveja para adolescentes. CONAR, por favor, faça alguma coisa!
FILMOGRAFIA
Última Parada 174 (2008)
Linha de Passe (co-autor - 2008)
Tropa de Elite (co-autor - 2007)
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (co-autor - 2006)
Nanoilusão (curta-metragem - 2005)
Cidade de Deus (2002)
Palace II (TV - 2002)
Carlota/Amorosidade (co-autor - média-metragem - 1987)
∎
Voltar ao topo


































